“E, ainda assim, a nossa língua pode atingir o seu ponto mais rico e poderoso quando é levada à clandestinidade.”

David Robson, BBC.

A linguista Abbie Hantgan já estava muito longe da sua casa em Michigan quando saiu de Timbutku. A partir da capital do Mali, viajou durante dias, passando lentamente pelos 250 km que a separavam do seu destino, lutando com estradas inundadas e todo tipo de obstáculos. Por fim, ao sair de um autocarro, chegou ao seu destino: um beco sem saída nas profundezas do vale do território Dogon. Hantgan recorda a aldeia de Bounou, “pendurada no penhasco” como “uma cena fora do tempo.”

Ia morar lá, em Bounou, com uma tribo reclusa: o povo Bangande. O próprio nome do povo reflete a sua natureza: a traduçãode Bangande é “Os Secretos“, “Os Furtivos” ou “Os Ocultos.” Percebem o que quis dizer.

A história dos Bangande é tão misteriosa quanto eles, mas algumas lendas sugerem que, há centenas de anos, um grupo de escravos pode ter escapado e construido uma vida nos penhascos. Isso pode explicar a razão pela qual eles sempre quiseram passar despercebidos, manter-se sozinhos e porque desenvolveram uma língua secreta própria, que se chama literalmente “A Língua Secreta Bangime.”

A língua Bangime foi descrita como a língua mais enigmática da África Ocidental. É falada por aproximadamente 1500 pessoas em sete pequenas aldeias e é considerada uma língua em extinção.

Num artigo para a New Scientist, Hantgan relembra como os nativos não a acolheram propriamente bem. Faziam troça dela todas as manhãs quando saíam de casa para cultivar as terras. Viam-na, e ao seu consultor, sentados, com um bloco de notas e uma caneta, a tentar compilar uma lista de todos os termos comuns da língua e achavam que isso era ridículo. Não era uma maneira de ganhar a vida: a agricultura era uma forma de sobreviver e ela não trabalhava na agricultura.

Hantgan acabou por encontrar um aliado num lugar improvável: o chefe da aldeia saiu em sua defesa. Ele explicou aos aldeões: “Ela está a cuidar das suas colheitas! A caneta é a sua enxada e o caderno é o seu terreno.”

Pouco a pouco, conquistou a confiança da população. Eventualmente, acabou por fazer bons amigos. Partilharam a sua língua com ela – as suas palavras e a sua gramática. Mas demorou anos até partilharem o seu segredo.

Na língua Bangime, as palavras nem sempre refletem aquilo que significam. De facto, muitas vezes significam exatamente o oposto: os significados das palavras podem ser invertidos de propósito. Segundo um exemplo, é possível dizer “uma árvore branca” para descrever uma árvore preta. É como uma língua virada do avesso.

É um truque simples, mas engenhoso e extremamente imaginativo. Quando as suas vidas dependiam disso, terá sido útil para que os Bagande pudessem enganar os comerciantes que sabiam falar a língua Dogon daquela parte da África, com a qual a Bangime partilha tantas palavras. Assim, mesmo que conseguissem entender o que diziam, nunca entenderiam sobre o que falavam.

Isso é o que torna a Linguagem Secreta numa linguagem secreta, antes de tudo. Além disso, torna-a na língua secreta mais antiga ainda em uso atualmente.

Os inícios modestos do polari

Polari, vem de “Parlare,” a palavra italiana. Significa “falar,” mas também é o nome de uma língua – uma que provavelmente não conheces.

Os bares gays têm uma longa história em Londres. Algumas provas sugerem que os primeiros estabelecimentos poderão remontar ao início de 1700. Pelo menos ao longo de 1800, encontramos referências a Molly-houses, pubs e cafés que também eram bordéis ou motéis. E parecem divertidos, pelo menos a julgar pela descrição feita do Vice: “[estes] eram espaços para mimetismo feminino; para gozar com casamentos e nascimentos; para cantar, para conviver e para fazer sexo.

Mas 200 anos depois, os gays ainda estavam a ser perseguidos. A homossexualidade era ilegal e uma atividade criminosa.

Alan Turing – o génio da matemática que ajudou os aliados a vencer a Segunda Guerra Mundial, desenvolveu um programa de xadrez para um computador que não existia e inventou o teste ainda hoje utilizado para decidir se um computador é capaz de pensar como um ser humano – foi acusado nos anos 50 de “indecência grosseira.” Foi considerado culpado e castrado quimicamente como punição. Viria a cometer suicídio dois anos depois.

Se fosses um homem e tentasses seduzir o homem errado, ainda serias atirado para a prisão, possivelmente acusado, provavelmente castigado. E foi por isto que o polari ganhou tanta força, no início do século XX, entre homens gay da classe trabalhadora.

Vê bem, o polari era uma língua secreta, um segredo conhecido apenas por alguns. Se alguém suspeitasse que outra pessoa era gay, dizia uma palavra polari numa conversa normal. Se essa outra pessoa soubesse polari, diria outra palavra nessa língua também. Saberias que essa pessoa era gay. Seria alguém com quem poderias estar seguro, alguém com quem, possivelmente, até poderias namoriscar ou seduzir. E mesmo numa sala lotada, ou no meio de uma conversa mais alargada, ninguém, além de vocês os dois, teria notado.

Não era muito diferente do (ironicamente) famoso aperto de mão secreto dos maçons. À medida que crescia, o código transformou-se num idioma. Um idioma pequeno: no Dicionário de Polari de 2002 do professor Paul Baker (o único alguma vez escrito) constam cerca de 400 palavras. Ainda assim, no seu auge, na década de 1960, era possível ter uma conversa completa caso se se fosse fluente em Polari.

Vocabulário de um Vagabundo

No século XVI, um magistrado chamado Thomas Harman pôs-se à porta de entrada da sua casa a fazer algo muito, muito incomum. Ele comprava palavras. E, de uma classe específica de pessoas, que a maioria dos seus contemporâneos normalmente não procurava para descobrir vocabulário: ele queria comprar palavras dos mendigos, oferecia-lhes comida ou dinheiro em troca de qualquer coisa que tivessem para lhe oferecer.

É claro que ele não queria qualquer palavra. Ele queria comprar as palavras deles. A língua secreta deles. Ele queria conhecer o que é chamado de “Thieves’ Cant” (às vezes, apenas “Cant” para abreviar).

No seu livro sobre gíria, ” Language: 500 Years of the Vulgar Tongue,” Jonathon Green descreve como Thomas Harman queria tanto conhecer a língua que chegou a ameaçar mandar alguns dos seus potenciais informadores para a prisão: “Ele dizia ‘ou me dás o teu Cant, ou mando-te para a prisão'”.

O Cant possui muitos nomes diferentes. Podes ler sobre “francês de bandido” ou até vê-lo referido como “Thieves’ Argot.” O Rogues’ Cant e o discurso ofensivo também foram utilizados ocasionalmente.

Esta necessidade de tantos nomes pode ter algo a ver com as suas origens sombrias. Afinal, o Cant era uma linguagem secreta utilizada pelos que estavam na periferia da sociedade britânica: por vagabundos e mendigos, ciganos e vigaristas, ladrões, burlões e afins. Ou, como disse Harman, “[por] vagabundos miseráveis, perversos e errantes que se auto-denominavam “egípcios,” profundamente dissimulados e que encobrem as suas práticas bastante enganosas .”

O Cant é considerado um criptodialeto, uma língua secreta destinada a confundir os não falantes e a excluí-los da conversa. Frequentemente, também desempenha um papel na afirmação do caráter de uma subcultura que se vê marginalizada pelas convenções sociais.

Supoem-se que o Cant terá aparecido por volta de 1530, ninguém sabe exatamente porquê, quando ou por quem. A história segundo a qual Cock Laurel, o Rei dos Ciganos e o “mais notório patife da Inglaterra vitoriana,” a inventou pela primeira vez em Devil’s Arse (uma caverna em Derbyshire) é provavelmente apenas isso: uma lenda ou mito, se bem que bastante colorido. Mas a motivação de Laurel poderia não estar muito longe da realidade: na história, ele queria uma língua que permitisse que ele e os seus aliados conversassem e fizessem planos com liberdade, em campo aberto, sem medo de serem ouvidos e compreendidos.

George Andrewes iniciao seu “Dicionário das Gírias e das Línguas Cant” assim: “Um grande infortúnio ao qual o Público está sujeito, é o facto de que os ladrões podem desenvolver uma língua própria; com ela, juntam-se nas ruas, sem terem medo de serem ouvidos ou entendidos.” As palavras procuram sugerir, inferir e implicar que estes criminosos e vigaristas não estão apenas a falar em público. Estão a criar esquemas e a planear o seu próximo ataque, até mesmo contra alguém que estivesse ali a ouvi-los.

Na altura, as pessoas supunham que se não querias que te entendessem, provavelmente não estavas a planear nada de bom.

Suponho que faça parte da natureza humana, que as pessoas tenham medo daquilo que é diferente e do outro. Que tenham medo daqueles que não podem controlar e que não se conformam. Como vagabundos a falarem uns com os outros sem ninguém perceber o que dizem. Ou dois gays numa sociedade homofóbica, ao encontrarem-se num bar, apenas para engatar.

O Cant foi utilizado durante centenas de anos, evoluiu, adaptou-se. Mais tarde, uma ramificação do Cant iria criar as raízes do Parlyaree do século XIX. Como já deves ter adivinhado, na viragem do século, o parlyaree passou a chamar-se polari.

Uma natureza exuberante e flexibilidade

Como língua, o Polari inspirou-se no Cant e noutras influências diversas. Era um produto da sua classe trabalhadora e cultura alternativa: o italiano e o ídiche de duas grandes populações de imigrantes que encontrarias no início do século XX em Londres (como os fãs de Peaky Blinders saberão). Ele inspirou-se noutras culturas marginalizadas, como os Romani. Tomou de empréstimo palavras de outra linguagem local, o Cockney Rhyming Slang, da classe trabalhadora de East End – outra linguagem clandestina, ainda hoje utilizada, que tem a reputação de ter ajudado as quadrilhas de East London a manterem-se a salvo da polícia).

Utilizou línguas como o irlandês e o francês que se ouviam falar nos portos de Londres, entre os trabalhadores das docas e os marinheiros. Retirou da gíria da força aérea americana. E algumas palavras eram apenas “backslanging” – ler a palavra ao contrário, como olebac em vez de cabelo.

Todas essas palavras eram incluídas, mas a gramática subjacente a todas era a do inglês. O facto da língua inglesa ser tão flexível pode explicar a facilidade em acomodar. É um idioma que desempenha o papel de Anfitrião em vários idiomas diferentes, como o pidgin, o boobslang, o rhyming slang e o polaris.

E o facto do inglês ser a espinha dorsal do polaris significava que o idioma poderia ser falado de várias maneiras. Apenas uma única palavra oferecida, como um aperto de mão secreto. Lançar algumas palavras numa frase, para acrescentar o charme e cor que, culturalmente, para os falantes do polari, eram tão importantes. Ou frases inteiras, conversas inteiras poderiam ser tidas em polari.

Podes ver essa evolução numa curta-metragem chamada ” Putting On the Dish” em que dois jovens se sentam lado a lado num banco. As suas primeiras palavras são hesitantes: um homem diz algumas palavras para sondar ou avaliar a reação do outro. Ele menciona que o livro que o outro está a ler, Laranja Mecânica, tem um final desagradável e pede-lhe um cigarro. Ao ver que o outro homem entendeu o que ele queria dizer, começam a conversar. As suas primeiras frases utilizam um pouco de polari e, em seguida, por volta dos 2:20 minutos, se tentares acompanhar a cena, eles começam a falar apenas polari.

Paul Baker, professor de linguística e a maior autoridade em polari no mundo, explicou, num episódio do podcast The Allusionist, que: “Para a maioria dos oradores, não se tratava de um idioma completo. Era um vocabulário composto principalmente de substantivos, verbos e adjetivos, que se baseava em objetos do quotidiano, em pessoas e em partes do corpo, roupas e esse tipo de coisas. E avaliando objetos do quotidiano, pessoas, partes do corpo e roupas.”

Uma coisa interessante sobre o polari é que, devido à sua natureza extravagante e à sua flexibilidade, nunca se escreveram regras, e o seu único dicionário foi publicado muito depois da linguagem ter morrido, era diferente de qualquer outra. Os melhores falantes não eram os que sabiam mais palavras ou as seguiram perfeitamente. Os melhores falantes eram os que conseguiam enriquecer o idioma, que foram realmente ótimos a improvisar novas palavras e a serem entendidos por quem os rodeava. Eles podiam mudar as palavras existentes para as tornar ainda mais complicadas, mais coloridas e brilhantes. A imaginação dos oradores e dos ouvintes era tão importante como tudo o resto.

À medida que crescia e amadurecia, o polari tornou-se tanto numa cultura como numa língua. Tornou-se uma identidade partilhada e moldou a perspetiva do mundo dos seus falantes. As pessoas que falavam polari desenvolveram um comportamento alinhado com a linguagem: irónico e subversivo. Faziam troça dos polícias, que obviamente eram os inimigos naturais, chamando-lhes “pulseiras Betty”, “lei Lily” ou “algemas Hilda,” por exemplo. Isso ajudou-os a brincar com situações como ser preso ou agredido.

Assim, essa cultura tornou-se mais do que um forma de comunicar muito daquilo que os homens e mulheres homossexuais precisavam de reprimir no dia a dia. Tornou-se num mecanismo para lidar com a repressão. Esta é a verdadeira força das línguas dos marginalizados. Dão poder aos que não têm poder.

Anti-idiomas e gramáticas emprestadas

Este fenómeno foi observado pela primeira vez pelo linguista Michael Halliday, que, em 1978, cunhou o termo anti-língua para descrever como subculturas estigmatizadas desenvolvem linguagens que as ajudam a reconstruir a realidade de acordo com os seus valores próprios.

Halliday baseou-se em três idiomas principais para chegar a essa conclusão: Thieves’ Cant, a língua do submundo em Bengala Ocidental, e um estudo de Grypserka, a gíria polaca da prisão. E descobriu que têm muitas coisas em comum.

Muitas vezes, por exemplo, a anti-língua utiliza dezenas de palavras para descrever um único conceito – especialmente no que diz respeito a palavras que são culturalmente importantes para os falantes. Este processo, chamado de hiperlexicalização, explica a razão pela qual existiam tantas maneiras diferentes de designar a polícia em polari. Da mesma forma, contou 21 palavras para “bomba” em Calcutá e 41 para “polícia.” E 20 palavras para “ladrões” em Cant.

E, tal como no Polari, todos os outros anti-idiomas pedem a gramática emprestada à língua mãe. Em seguida, substituem as palavras-chave por aquelas que somente o grupo conhece e entende. Mas, salienta Halliday, os anti-idiomas não eram apenas para ajudar a manter as pessoas afastadas.

Fortaleciam o vínculo entre os membros de determinado grupo. O principal objetivo de um anti-idioma é construir uma realidade alternativa, com valores diferentes da sociedade em geral.
“É um modo de resistência,” escreve Halliday. “Resistência que pode assumir a forma de simbiose passiva ou de hostilidade ativa e até destruição”.

Portanto, quanto mais a polícia tentava reprimir os gays, mais forte o polari se tornava. O elo que uniu os seus oradores ficou mais forte, a cultura tornou-se mais importante e mais animada. O número de falantes do polari aumentou. E até a maneira como isso aconteceu tinha um aspeto cultural: muitos falantes de polari lembram-se de ter sido iniciados no idioma por membros mais velhos e mais experientes da comunidade. Receber um nome de guerra era um ritual de passagem, e era normalmente uma versão feminina do nome: Paul iria tornar-se Paulette, por exemplo.

E embora seja impossível saber o número exato de falantes, no auge, o polari foi partilhado por dezenas de milhares de pessoas.

Uma grande número dos seus oradores esteve sempre no cenário das artes. Mas na década de 1960, quando vários artistas gay famosos ganharam destaque, em peças de teatro e musicais, e depois na televisão e na rádio, a língua começou a emergir.

Tal como as palavras de culturas alternativas são hoje captadas pelo mainstream (pensa em “woke,” emprestado dos afro-americanos), o polari começou a ser utilizado por pessoas que não eram falantes de polari. Num momento colorido que foi directo para as manchetes, a princesa Anne supostamente disse aos fotógrafos para “naff off.”

Em 1965, o polari começou a ser transmitido, semanalmente, para cerca de 20 milhões de pessoas, pelo meio de comunicação mais improvável: a BBC. Isto aconteceu no popularíssimo programa de rádio “Round the Horne.” De repente, uma linguagem que tinha sido criada, disseminada e utilizada para eludir o governo, estava a ser utilizada em entretenimento que era propriedade do estado.

Mas, mesmo assim, ainda era subversiva. Foi utilizada pelos atores e comediantes do programa para desafiar a Associação Nacional de Visualizadores e Ouvintes, a associação presidida pela homofóbica e ultra-conservadora Mary Whitehouse.

Mesmo quando Whitehouse e o NVLA fizeram campanha para limpar a BBC da “imundice” que encorajava “uma sociedade permissiva,” como palavrões, cenas de sexo, violência (ela conseguiu que Kubrik não mostrasse Laranja Mecânica na Grã-Bretanha) e até gírias como “bloody” ou “bum,” os comediantes e atores de “Round the Horne” faziam dezenas de referências ao sexo e à cultura queer de uma forma completamente despercebida.

Para alguns falantes de polari, no entanto, isto foi desanimador. É irónico, para dizer o mínimo, ver que uma língua começou a desaparecer à medida que se tornou mais popular. É quase ridículo. Mas partilhá-la com os milhões de ouvintes de “Round the Horne” fazia parecer que o programa estava a revelar o segredo. Ver membros da realeza a começarem a utilizar a língua sugeriu que era hora de seguir em frente.

E esse elemento de segredo tinha uma magia própria. Esta era uma linguagem que dependia da exclusividade para sobreviver. Perdê-la foi o primeiro passo para o seu declínio.

Mais tarde, em 1967, a Lei de Ofensas Sexuais foi finalmente aprovada como lei (ou parcialmente) descriminalizando a homossexualidade. De repente, uma linguagem secreta deixou de ser necessária.

A lei coincidiu com um crescente movimento pelos direitos dos gays, que era exatamente o oposto daquilo para que o polari servia. A batalha que estavam a travar estava a ser reformulada: não se tratava de criar uma comunidade que pudesse sobreviver a uma sociedade maior, tratava-se, principalmente, de não ter de criar uma comunidade. Era sobre ser aceite exatamente como eras, onde quer que fosses. Era sobre orgulho, não sobre segredos. No final dos anos 1960, grandes mudanças culturais aconteciam por toda a parte. E isso também era verdade nas comunidades LGBT. À medida que a década de 1970 progredia, o Polari tornava-se cada vez menos popular. Era visto como antiquado, na fronteira do obsoleto.

Porque jogava com os estereótipos, por exemplo – “camp” é uma palavra polari que passou para o inglês atual. E as iniciações e hierarquia informal estavam em desacordo com a forma como os jovens queriam moldar a sociedade ao seu redor. A maneira como grande parte da linguagem jogava com objetivar tanto os objetos da tua afeição quanto do teu despeito, parecia antiquada.

Até a maneira como o Polari gozava com a polícia lançando dúvidas sobre a orientação de género ao utilizar nomes femininos, começou a ser vista como um exemplo de como toda a cultura poderia ter sido baseada em sexismo casual.

Esta linguagem antiga, que havia acompanhado tantos através de tanta coisa, não se adaptou a estas novas leis, novas normas, novas culturas e ao movimento crescente.

A língua desapareceu e depois morreu. Volto-me para Paul Baker, novamente, para que faça um último tributo:
“Eu adoro o polari, mas espero que as condições sociais de mesquinhez mental que levaram à sua criação nunca exijam que algo deste género aconteça novamente neste país.”

Uma resistência judaica armada com a língua

Não há muitos lugares na Terra tão desprovidos de vida quanto o Mar Morto. Situado no deserto seco e árido da Judeia, é quase 10 vezes mais salgado que o oceano. Tem tanto sal na água que nenhum animal ou planta consegue sobreviver. Está, pela sua natureza e pelo seu nome, morto.

Em 1947, três beduínos estavam a guardar cabras que pastavam nas imediações. Por acaso, entraram numa das milhares de cavernas do lado rochoso e encontraram um tesouro inestimável, mas improvável: sete potes de barro cheios de pergaminhos. Estes pergaminhos eram alguns dos manuscritos sobreviventes mais antigos do Tanakh, ou Bíblia Hebraica.

Os beduínos trouxeram-nos de volta ao acampamento, para mostrar à família e aos amigos. Durante algum tempo, penduraram estes pergaminhos num poste enquanto tentavam encontrar um comprador. Um negociante de antiguidades judeu em Belém recusou-se a comprá-los: talvez pensasse que não tinham valor, ou talvez pensasse que tinham sido roubados de uma sinagoga.

Os pergaminhos sobreviveram mudando de mão em mão, vendidos por pequenas somas de dinheiro. Sobreviveram à guerra israelo-árabe de 1948, tendo sido levados para Beirute por questões de segurança. E em 1948, depois de chamarem a atenção das American Schools of Oriental Research (ASOR), foram anunciados ao mundo.

Demorou dois anos até que os arqueólogos redescobrissem a caverna onde os pergaminhos tinham sido encontrados. Afinal, uma guerra estava em curso e seria impossível montar uma operação em larga escala sem o apoio de uma das fações. Os arqueólogos tentaram que o exército sírio ajudasse, mas este pediu mais dinheiro do que a ASOR podia pagar.

Só depois da Jordânia dizer à Legião Árabe para procurar na área é que encontraram a caverna original. Isto aconteceu no dia 28 de janeiro, 1949.

Nos anos seguintes, beduínos e arqueólogos rastreariam a área. Encontraram mais 10 cavernas, um total de 972 pergaminhos tinha sido escondido nelas. A 11ª e última caverna foi encontrada apenas em 2017.
Os académicos têm vindo a traduzir estes pergaminhos desde então, um trabalho que ainda não foi concluído.
Mas uma das descobertas mais recentes sugere que oito pergaminhos foram escritos num anti-idioma morto.

O estudioso que os analisou pela primeira vez deu-lhe o nome de Manuscrito Críptico A. Agora, sabemos que foram escritos em hebraico Qumran, com um código de substituição. Basicamente, o escriba que os escreveu substituía as letras hebraicas por outras, ou sinais secretos especiais.

O professor de Tel Aviv, Noam Mizrahi, propõe que a escrita esotérica tenha uma função social. “Faz com que uma pessoa se sinta muito importante por ler coisas que os outros não conseguem.”

Dietmar Neufeld escreveu que “o povo dos Manuscritos do Mar Morto tinha desenvolvido as características de uma anti-língua, uma identidade linguística própria que era totalmente compreensível entre eles, mas incompreensível para os de fora.” William Schniedewind reforça isto ao argumentar que esta foi uma decisão cultural deliberada e consciente.

E tão recentemente quanto 2018, uma jovem investigadora juntou 60 pequenos fragmentos de um rolo com 2000 anos de idade para descobrir mais uma peça deste quebra-cabeças.

Ela descobriu uma nota de rodapé percorrendo seis peças diferentes. E assumiu que seriam uma linha contínua, até que mudou inesperadamente de direção. Momentaneamente confuso, um colega perguntou se era possível que o escriba tivesse ficado sem espaço. De repente, ela conseguiu seguir esta nota de rodapé ao longo do pergaminho, ligando dezenas de peças.

O pergaminho, que acabou por se revelar um calendário anotado, revelou que havia uma luta pelo poder. As pessoas que viviam e se escondiam nas cavernas de Qumran eram uma seita, recusando a autoridade do Segundo Templo, que tentava controlar a prática judaica. E este calendário rasgado era a chave para descobrir isso.

Já sabíamos pelas histórias do Antigo Testamento que a luta dos oprimidos para se libertarem dos que estão no poder é uma história tão antiga quanto o tempo. O que ainda não sabíamos é que, sempre que houve uma cultura de resistência, a resistência muniu-se de linguagem.

O verdadeiro poder das linguagens de resistência

Em 2020, o polari é considerado pela maioria dos especialistas como uma língua morta. Mas não desapareceu.
Na verdade não.

Na verdade, continua a aparecer nos lugares mais improváveis. Numa escola em Manchester, por exemplo: um grupo de ativistas que pretendia destacar a falta de inclusão LGBT na educação, criou um exame de estudos LGBT nos quais a secção de idiomas estava toda escrita em polari.

Ou no álbum final de David Bowie. Numa faixa chamada Girl Loves Me, Bowie mistura dois anti-idiomas: Polari com Nadsat, o criptoleto fictício de A Clockwork Orange.

Vice traduz uma parte da música:

“Cheena so sound, so titi up this malchick, say party up moodge,” canta Bowie juntando as duas línguas. Para os não iniciados, as letras de Bowie são absurdas – mas na tradução, sabendo que “titi” significa “bonito” em Polari e “cheena”, “malchick” e “moodge” denotam “rapariga”, “rapaz” e “homem” em Nadsat – elas traduzem-se como ‘Rapariga tão saudável, tão belo este rapaz, vamos festejar, homem’. “

Finalmente, e talvez o mais improvável de tudo, o polari chegou à Igreja. Um grupo chamado Irmãs da Indulgência Perpétua criou uma Bíblia Polari executando-a através de um programa de tradução que desenvolveram. A Bíblia já está na sua 7ª edição e podes aceder a ela gratuitamente online. Foi desenvolvida como parte de um programa maior para tornar a religião mais inclusiva. Para lembrar às pessoas de que não é preciso ser-se gay ou religioso. De que existe espaço para a comunidade LGBTQ e a sua cultura dentro de cada igreja e templo.

Algo que o Colégio da Igreja da Inglaterra tentou expressar antes de ser forçado a expressar o seu arrependimento. A Igreja realizou uma oração noturna em polari, em Cambridge, utilizando a Bíblia Polari, durante uma missa em antecipação do Mês da História LGBT. Mas os fiéis da igreja ficaram chocados ao ouvirem Deus ser denominado de “Duquesa Glória”. Ou quando, em vez da tradicional “Glória ao pai, e ao filho, e ao Espírito Santo”, o reverendo conduziu a oração com as palavras: “Maravilhosa seja a tia, e o Homie Chavvie, e a Fada Fantabulosa.”

O escândalo que se seguiu apenas provou exatamente que o polari poderia estar morto, mas ainda possuía algum do seu poder. O poder de unir. O poder de subverter as expectativas. De iniciar uma conversa. Mais importante do que qualquer outra coisa, o poder de chocar.

Nota do autor:

Muito obrigado ao Paul Baker, por escrever o fabuloso Fantabulosa: O Dicionário de Polari e Gíria Gay. Este artigo não poderia ter sido feito sem a sua extensa pesquisa e contribuições prolíficas. Ele fez mais do que ninguém para manter vivas as histórias desta língua morta.

Ouvi-o pela primeira vez no Allusionist Podcast de Helen Saltzman. Se gostas de idiomas e palavras, e as histórias que ligam estes dois, não o posso recomendar o suficiente.