As línguas sobrevivem a incêndios, inundações, secas, fomes e guerras.

Mas por vezes, morrem.

O que significa que antes disto acontecer, deviam estar vivas. Podemos não ver as coisas desta maneira, mas diante dos nossos olhos, todos os dias e todos os anos as línguas crescem, evoluem, transformam-se.

Da mesma forma que uma cobra muda de pele, as línguas têm uma qualidade orgânica que lhes permite mudar com o tempo e com as pessoas que as falam, escrevem nelas e as ouvem a cada segundo de cada dia.

Até que um dia, tudo cessa. Como o acádico, a língua do antigo império assírio.

O acádico e o segredo da sobrevivência

Lembram-se de Noé? O tipo com o jardim zoológico flutuante? Segundo a lenda, o neto dele, Aram, começou uma pequena tribo de nómadas. Esses nómadas eram ambiciosos e começaram a conquistar tudo. Entre os séculos IX e XI, governaram grande parte do atual Iraque, Síria e Turquia. Os Arameus falavam aramaico.

Se é um dos dois fãs que restam a Mel Gibson, ainda se deve lembrar do aramaico como a língua falada em A Paixão de Cristo. Ou, se é um pouco nerd da Bíblia, pode conhecer o aramaico como uma das línguas em que o livro foi escrito.

Os Assírios conduziram as suas carroças, tomaram a Babilônia aos Arameus e expulsaram-nos das suas terras. Achavam que tinham vencido. Pensaram que tinham garantido um futuro para o império e para a língua.

Mas já ninguém sabe falar acádico. Na verdade: estou disposto a apostar vinte dólares que nunca ouviram falar dessa língua. Tenho razão? Enquanto cerca de meio milhão de pessoas ainda falam aramaico. Hoje. 3000 anos depois!

O que aconteceu?

Os arameus estavam habituados a viajar e, quando eram expulsos, faziam o que sabiam fazer melhor. Faziam as malas e iam embora. Em pouco tempo, a diáspora estava a espalhar pequenas comunidades por todo o Mediterrâneo.


Quando os Assírios foram conquistados, a elite, que falava o acádico, foi quase totalmente destruída.

A lingua desapareceu.

Então, o que aprendemos aqui?

  • Uma lingua que viaja dura mais tempo. Ter pequenas diásporas em muitos lugares é melhor do que ter uma comunidade enorme num só lugar. Se quisermos saber que idioma ainda poderá estar aqui daqui a três mil anos, não podemos olhar para o número total de pessoas que o falam, mas para o número de comunidades que o fazem.
  • Uma língua que não viaja, está em apuros.

Este último ponto leva-nos ao mandan.

Mandan e o homem que o falava

Quando se fala em “línguas mortas,” provavelmente pensamos em latim e grego. Talvez em mil ou dois mil anos atrás. Mas, em 2016, três línguas foram extintas: Gugu Thaypan, uma língua indígena australiana, bem como Wichita e Mandan, duas línguas nativas americanas.

Edwin Benson morreu a 9 de dezembro 2016. Era o último falante de Mandan. Há apenas três anos, Benson, visivelmente emocionado, explicou num discurso: “Eu não tenho ninguém com quem falar a língua Mandan.” Disse então à plateia o quão estranho deve ser imaginar e acreditar ser a última pessoa no mundo a falar uma língua.

Não é tão raro como se pode imaginar, no entanto. Desde o ano 2000, pelo menos 53 pessoas diferentes morreram e foram os últimos falantes de uma língua.

A tendência só vai acelerar. Afinal de contas, como diz este orador do TEDX, 50% do mundo fala 50 idiomas e os outros 50% falam os restantes 6.950.** Muitas destas línguas são faladas por pequenas comunidades em regiões remotas. As pessoas têm-se mudado de pequenas comunidades para grandes cidades desde o início da revolução industrial, se não antes. Vários países ocidentais veem os habitantes das províncias envelhecer e as populações das aldeias a diminuir. E isto provoca:

  • Uma necessidade de assumir uma responsabilidade linguística. Se uma língua for falada apenas pela comunidade de uma ou duas aldeias, ou os jovens são cuidadosos o suficiente para a levar com eles quando vão para a cidade – ou então a língua vai morrer.

E essa lição é universal, não é? Tem de se cuidar da língua, da mesma forma que se faria com a carreira, os filhos ou as plantas. Se não se fizer isso, as coisas acabam mal.


Edwin Benson deu aulas de Mandan. Mas ninguém aprendeu Mandan corretamente.

Então fez a segunda melhor coisa: liderou um projeto de um milhão de dólares para recolher e documentar registos da língua. Partilhou tudo o que sabia com linguistas. Podemos ouvir Benson a contar uma história em Mandan no YouTube. Há um dicionário Mandan de 2000 páginas que lhe deve a existência. Essa é a outra lição de Edwin Benson:

  • Se não se pode salvar alguma coisa, preserva-se.

Às vezes, não há nada a fazer senão seguir em frente.

Outras vezes, no entanto, pode salvar-se uma língua que está a morrer. Pode até mesmo ressuscitar-se uma morta.

Sânscrito, uma linguagem re-re-re-renascida

O sânscrito é uma língua estranha e teimosa. Pode ser considerado o latim do subcontinente indiano – a raiz de muitas das línguas modernas, utilizadas principalmente para fins litúrgicos nos séculos passados. É uma língua que foi declarada morta algumas vezes e aparece com destaque na maioria das publicações sobre línguas mortas. Mas qual Son Goku, continua a voltar dos mortos para se juntar à luta.

Por mais que queiramos pensar em línguas como seres vivos (que envelhecem, amadurecem, morrem), o sânscrito lembra-nos que as línguas são construções culturais.

  • Com esforço suficiente, as línguas podem ser ressuscitadas.

A Índia é uma nação modelo para a preservação da linguagem. Os fundadores da nação reconheceram que as línguas são aspetos críticos da cultura e que, se quisessem preservar o multiculturalismo do país, teriam que proteger as suas muitas línguas. Assim, adicionaram uma lista de todas as línguas à constituição e o Estado tem a obrigação não apenas de as proteger, mas também de as desenvolver.

Como resultado, agora existem aldeias inteiras onde a população está a aprender sânscrito novamente e, mais importante, a falá-lo. Em 2001, esta língua morta tinha 14.135 indianos a utilizá-la como primeira língua. Acredite-se ou não, esta é mesmo a língua oficial da “cidade mais estranha da América.

O sânscrito também expande o cérebro . Literalmente. Efacilita a aprendizagem de código. Pelo menos de acordo com um aprendiz de monge budista, que agora está a vender ações em Nova York.

Portanto, ao prestar a nossa homenagem aos idiomas perdidos, devemos certificar-nos de que não o fazemos de forma demasiado sóbria, que celebramos os esforços dos que querem reavivá-las e renovamos o nosso compromisso com os idiomas que mais amamos.