Artigo de Brandon Deer, originalmente publicado na OpenView LabsUma Conversa sobre o Futuro da Inteligência Artificial com Vasco Pedro da Unbabel

A linguagem e os mecanismos de processamento de informação que nela conseguimos entrever sempre fascinaram Vasco Pedro.

A sua licenciatura centrou-se em questões de inteligência artificial e linguística computacional, ao passo que as suas teses de mestrado e doutoramento em Carnegie Mellon aprofundaram temas relacionados com o processamento natural da linguagem. Ao longo de sua formação, Vasco Pedro explorou os fundamentos do pensamento humano, o advento da consciência e os principais aspetos da linguagem à luz da inteligência artificial (IA).

Dez anos mais tarde, juntamente com João Graça,Vasco Pedro decidiu conjugar estes vários interesses e criar a Unbabel, uma plataforma de tradução baseada em inteligência artificial. “A inteligência artificial foi inventada para resolver problemas de tradução”, afirma Vasco Pedro.
“Eu e o João Graça sentíamos-nos frustrados por constatar que a tecnologia estava ainda muito longe de cumprir a promessa de resolver o problema da tradução automática”.

Foi durante uma excursão de surf que os futuros parceiros começaram a articular a sua missão. “Sabíamos que tinha de haver uma solução melhor e percebemos que o mercado da tradução estava pronto para uma revolução”, recorda Vasco Pedro. “Para nós, a principal questão era saber como seria o mundo se não houvesse barreiras linguísticas. Qual seria o PIB mundial?”. A Unbabel assumiu então a missão de criar um sistema que permitisse a todas as empresas comunicar, de forma ininterrupta, em qualquer língua, cabendo à IA um papel fundamental nesta solução.

O Segredo da Unbabel: Camadas de Inteligência Artificial

“Decidimos articular a velocidade e agilidade da tradução automática com a qualidade da tradução humana”, afirma Vasco Pedro. “No início, tratava-se sobretudo de um modelo transacional que implicava formulários de encomenda, transferências de documentos e pagamentos à peça”. Mas a equipa cedo percebeu que o serviço de tradução era, muitas vezes, uma necessidade recorrente, já que estava associado a trocas de mensagens entre os clientes da empresa e os respetivos departamentos de marketing, vendas e pós-venda. Com base nessa observação, a Unbabel lançou um serviço de assinatura que cobria vários tipos de conteúdo. A abordagem seguinte deslocou o enfoque da empresa para o segmento do serviço de apoio ao cliente.

“Personalizar o serviço internacional de apoio ao cliente é um desafio enorme”, afirma Vasco Pedro. “É necessário contratar pessoas que falem essas línguas. É preciso abrir escritórios em diferentes países para cobrir essas línguas. É um processo muito complexo”. A resposta da Unbabel a este desafio e a esta complexidade passa por “dissociar a linguagem do conjunto de competências”, permitindo às empresas contratar pessoas com base no conhecimento do produto, centralizar o serviço de apoio ao cliente, e otimizar a gestão de recursos com maior facilidade.

Nos bastidores, a equipa da Unbabel entende a inteligência artificial como um conjunto de funções que se articulam para oferecer aos seus clientes o serviço ininterrupto de tradução de que estes precisam. O elemento de IA mais evidente em todo este processo é o módulo de tradução automática. “Temos os nossos próprios motores de tradução automática, que aprendem continuamente com cada nova tradução”, explica Vasco Pedro. “O objetivo é fornecer aos nossos editores o melhor primeiro esboço de tradução possível”.

As restantes camadas de IA que compõem a plataforma da Unbabel incluem um módulo de estimativa de qualidade – um mecanismo baseado em redes neurais que avalia a qualidade de uma tradução para determinar se esta precisa de ser corrigida por um tradutor humano. De seguida, um módulo de distribuição ajuda a assegurar que determinada tarefa de tradução humana será confiada ao editor mais competente. “O mecanismo de distribuição escrutina a nossa comunidade de 45 000 editores e identifica os elementos mais qualificados com base nas suas competências e especializações”, explica Vasco Pedro. “O sistema procede a estas correlações e atribuições em tempo real”.

“O derradeiro módulo de inteligência artificial é um sistema designado como Smartcheck [Verificação Inteligente], que é um módulo de incremento humano”, afirma Vasco Pedro. “Este módulo analisa o texto de forma contínua e fornece sugestões e correções aos editores humanos. O Smartcheck é uma espécie de suporte de inteligência artificial para o tradutor humano”.

Ao recorrer à inteligência artificial para potenciar o trabalho humano, a Unbabel consegue oferecer ‘escalabilidade’ e velocidade – dois elementos muito valiosos no universo da tradução. “Normalmente, sem a plataforma da Unbabel, um tradutor humano consegue processar entre 300 e 400 palavras por hora”, afirma Vasco Pedro. “Ao trabalhar com a plataforma da Unbabel, esse mesmo tradutor consegue processar entre 1200 e 1400 palavras por hora – um aumento de velocidade bastante significativo.”

Muito provavelmente, esta articulação entre inteligência humana e inteligência artificial será o terreno mais fértil para o desenvolvimento prático da IA. No entanto, estamos ainda muito longe de conseguir transportar este tipo de realidade para o quotidiano. Para melhor contextualizar o problema, é necessário aferir a nossa atual posição no continuum do desenvolvimento da IA.

O Continuum da Inteligência Artificial

“A inteligência artificial ainda se encontra num estádio bastante primitivo”, defende Vasco Pedro. “Há muitas coisas que não sabemos sobre a inteligência em geral. Não compreendemos como funciona a inteligência humana, o que dificulta a tarefa de a replicar. Somos muito eficazes em tarefas de natureza taxonómica, mas no que diz respeito ao raciocínio — raciocínio simbólico e raciocínio e aprendizagem em geral — há muitas coisas que continuam atracadas nos anos 80. Faltam-nos ainda quatro ou cinco grandes descobertas para podermos ter algo de verdadeiramente autónomo”.

Ou seja, estamos ainda muito longe da Skynet e da Matriz. Mas quanto caminho nos falta percorrer? A investigação sobre inteligência artificial remonta, tal como a sua aplicação prática, aos anos 60. Naquela época, acreditava-se que no espaço de dez anos teríamos um sistema de IA capaz de falar e traduzir como um ser humano.
Estas expectativas, como é evidente, não se concretizaram, dando lugar, nas palavras de Vasco Pedro, ao primeiro “inverno da inteligência artificial”.

A este primeiro inverno sucederam-se vários outros contratempos, incluindo, nos anos 80, a IA simbólica e os sistemas de pensamento especializado (conceito que previa a substituição de médicos e outros especialistas por sistemas de IA), e, já nos anos 90, a vaga de tradução estatística automática (que, uma vez mais, gerou e gorou muitas expectativas).
O mais recente elemento na paisagem da IA são os sistemas neurais, que – tal como os seus antecessores – estão também sob grande pressão para resolver todos os problemas da disciplina.

A inconstância do ser humano explica parte das dificuldades que a IA tem vindo a enfrentar. “Somos, enquanto seres humanos, facilmente seduzidos por tudo o que pareça humano”, explica Vasco Pedro. “Ao mesmo tempo, tudo o que nos pareça humano sem realmente o ser é motivo de grande frustração”. Por outras palavras, o ser humano é pouco tolerante para com uma inteligência artificial que não cumpra, de forma cabal e imediata, todas as expectativas que nela são depositadas.

Para exemplificar as atuais limitações dos produtos de IA, Vasco Pedro refere os casos do Google Home e do Alexa da Amazon.
“A Google e a Amazon estão a investir uma fortuna nestes produtos”, observa Vasco Pedro. “Estão a fazer coisas muito interessantes, mas basta tentar interagir com um destes produtos para termos uma noção clara das suas limitações. Se fosse possível ir além do que estão a fazer, estas empresas, que têm todo o interesse em apresentar melhores resultados, já o teriam feito”.

Na opinião de Vasco Pedro, há um campo ainda mais promissor do que os assistentes pessoais baseados na inteligência artificial: os progressos que têm vindo a ser feitos em torno da ideia de conjugar capacidades humanas e computacionais. “Acredito profundamente nos argumentos de Elon Musk e Ray Kurzweil: o ‘nós’ vai tornar-se a IA”, explica Vasco Pedro. “O verdadeiro desafio está na interface com o nosso neocórtex. Elon Musk acaba de lançar o desafio do ‘laço neural’, e há outros projetos a serem desenvolvidos.

Segundo Vasco Pedro, esta fusão entre homem e máquina está já presente em realidades muito quotidianas que damos por adquiridas. “Os números de telefone já não estão no nosso cérebro, estão no nosso telefone”, explica Vasco Pedro. “Similarmente, os aniversários estão no Facebook e as direções estão nas aplicações GPS. Tal como Kurzweil tem vindo a dizer, a singularidade reside na fusão entre homem e máquina, resultando este processo num incremento das capacidades do ser humano”.
“No entanto”, acrescenta Vasco Pedro, “ainda estamos muito longe desse patamar. As pessoas associam a inteligência artificial ao HAL do ‘2001: Odisseia no Espaço’, mas ainda estamos num estádio bastante mais primitivo”.

Desafios Humanos para a Tecnologia da IA

Retomando o estado atual da IA, Vasco Pedro reconhece que o mercado apresenta vários desafios, mas acredita que é na mentalidade humana, e não tanto em limitações de ordem tecnológica, que residem os principais obstáculos. “IA é um termo que cativa a imaginação”, observa Vasco Pedro. “É por isso que todos o usam. É como o termo ‘big data’ há alguns anos, muitas vezes mal aplicado. Tornou-se uma designação praticamente oca porque parece que toda a gente está a trabalhar na área quando, na realidade, poucos progressos se fazem”.

Embora muitas pessoas afirmem trabalhar no universo da inteligência artificial sem entender o verdadeiro significado do termo, há várias empresas a desenvolver um trabalho muito competente nesta área. “Nota-se um impacto real no serviço ao cliente”, observa Vasco Pedro. “Empresas como a DigitalGenius estão a automatizar certas tarefas do serviço de apoio ao cliente. Eu vejo o trabalho destas empresas como uma abordagem de ‘nível um’ em que há uma primeira camada de inteligência artificial e, posteriormente, uma forma inteligente de melhorar ou personalizar estes resultados para os seres humanos”.

Vasco Pedro reconhece que há empresas a explorar outros caminhos, aplicando a IA a processos de qualificação e a GANs (Generative Adversarial Networks), mas constata também um fenómeno bastante interessante: as pessoas deixam de conceber a IA como IA a partir do momento em que esta é aplicada com sucesso. “Dir-se-ia que, a partir do momento em que é bem-sucedida, a IA deixa de ser IA para passar a ser mera tecnologia”, argumenta Vasco Pedro. “Coisas que há dez anos eram consideradas IA passaram a ser ‘pesquisa’, ‘tradução automática’ ou qualquer outra coisa. Temos uma tendência para deslocar permanentemente a meta da IA, tornando-a inalcançável. Muito possivelmente, só estaremos satisfeitos com a IA quando tivermos uma máquina consciente que nos pareça quase humana”.

Quatro Conselhos para Startups com Grandes Ambições no Universo da IA

Aplicar a inteligência artificial ao mundo das startups acarreta vários desafios, mas Vasco Pedro tem quatro conselhos para quem está a pensar aventurar-se neste universo. O primeiro prende-se com a capacidade de materializar uma boa ideia.

“Um dos grandes problemas do mundo das startups reside no facto de haver muitas pessoas com ótimas ideias e com as competências necessárias para singrar, mas que acabam por esgotar os seus recursos a construir infraestruturas e tudo o que é necessário para lançar uma startup”, afirma Vasco Pedro. “No caso da Unbabel, tínhamos uma ideia muito clara de como utilizar a IA para resolver o problema da tradução, mas precisámos de quase dois anos para podermos começar a trabalhar com algo que se aproximasse do universo da IA. Muitas empresas sentem o mesmo problema. Têm o discurso certo, estão focadas em usar a IA para resolver um problema específico, mas depois é difícil perceber se têm os recursos necessários para acrescentar algo a esta área”.

O segundo conselho de Vasco Pedro passa por contratar as pessoas certas. “Tragam para a vossa equipa alguém que saiba realmente o que está a fazer”, afirma, sem rodeios, o co-fundador da Unbabel. “Hoje em dia, fala-se muito de inteligência artificial e de aprendizagem automática. É muito fácil sermos ludibriados, sobretudo se não tivermos conhecimentos específicos na área. É fundamental que a pessoa responsável pela IA saiba realmente o que está a fazer”.

Vasco Pedro também defende que é necessário ter algum tempo para respirar. “É preciso ter mais tempo para a experimentação”, afirma. “Temos duas opções. Ou fazemos algo do tipo ‘off-the-shelf’ relativamente a um problema conhecido (como classificação) – e, nesse caso, é melhor optar por técnicas comprovadas que nos deem um impulso imediato e nos permitam usufruir do trabalho que já foi feito; ou é necessário reservar mais tempo para a experimentação de forma a que possamos inventar algo de realmente novo”.

Por último, Vasco Pedro defende que é necessário moderar as nossas expectativas. “A IA é uma excelente ferramenta. No entanto, e salvo raras exceções, se a utilizarmos de forma isolada e alimentarmos grandes expectativas quanto ao produto final, sairemos desapontados”, afirma.
“Embora eu acredite em veículos autónomos e considere que estamos a fazer grandes progressos no campo da tradução automática, estamos ainda muito longe de uma inteligência artificial que possa ser – como se de uma bala mágica se tratasse – anexada a um produto para o melhorar instantaneamente. É preciso ser cauteloso e realista com as expectativas – as suas e as dos seus clientes”.