No século XXI, nenhuma empresa que esteja de olho na expansão global pode ignorar a China.

O país, que se lançou pela primeira vez no cenário económico internacional em 1978 com a sua política de reforma e abertura, tem-se expandido a um ritmo vertiginoso desde então, atingido em média, quase 10% de crescimento anual, de acordo com o China Business Handbook 17/18 do Conselho Empresarial China-Grã-Bretanha.

Embora o crescimento económico tenha desacelerado recentemente, a China ainda supera muitos outros países. Impulsionada em grande parte por um aumento do rendimento da classe média e pela crescente confiança do consumidor, a economia chinesa continua a crescer.

As empresas que querem fazer negócios na China estarão a operar num ambiente muito diferente, onde as regras e os relacionamentos mudam. Uma compreensão das nuances e desafios do mercado chinês é essencial antes de apostar nesta região potencialmente lucrativa.

Barreiras linguísticas e culturais

As empresas que querem fazer negócios na China não devem subestimar as barreiras linguísticas e culturais. O mandarim pode ser a língua nacional na China, mas, como língua tonal, é notoriamente difícil de aprender.

O governo chinês apenas estipulou oficialmente o mandarim como língua nacional na China continental em 2001 de acordo com o New York Times. Esta língua é mais útil quanto mais perto se estiver de Pequim, e à medida que nos afastamos dessa cidade, os dialetos locais podem dificultar a comunicação, de acordo com o blog de leis da China.

Os Han, o grupo que compõe 90% da população, têm 1500 dialetos, diz o Times, e muitos deles são marcadamente diferentes. Por exemplo, o dialeto Wu falado em Xangai apenas coincide com o mandarim em 31% (a mesma semelhança lexical que o inglês tem com o francês).

Além disso, os chineses mais velhos ainda podem preferir o cantonês, e esta língua ainda é ensinada e falada em Hong Kong e Macau.

Há também diferenças culturais a serem consideradas entre os dois países, que podem facilmente levar a uma discussão de negócios no pé errado.

Algumas nuances culturais podem levar ao desastre na sala de reuniões, a menos que os negociadores estejam preparados. Iniciem as reuniões com conversa de circunstância, aconselha o International Business Times e estejam preparados para que elas durem um pouco. Ficar à vontade um com o outro é uma grande componente para fazer negócios na China. Não tenham pressa.

Antes de começar a criticar tudo, percebam como a cultura chinesa vê o mundo. O China Daily regista disparidades nas atitudes chinesas e ocidentais em torno de várias questões, incluindo:

Privacidade

Os cidadãos chineses podem estar abertos a falar sobre assuntos considerados intrusivos pelos ocidentais, como idade e vencimento.

Família

Enquanto os ocidentais lutam pela independência da família, muitas famílias chinesas são muito unidas e reverenciam os mais velhos, que muitas vezes vivem com o resto da família.

Envolvimento da Equipa

A China valoriza o esforço comunitário e a recompensa coletiva, em contraste com as noções tradicionais de auto aperfeiçoamento e realização individual do Ocidente.

A necessidade de conversa de ocasião ilustra perfeitamente a necessidade de paciência ao fazer negócios na China. Isso faz da paciência uma virtude fulcral na República Popular.

Não fiquem frustrados enquanto esperam que o negócio real comece e sejam otimistas à medida que ultrapassam as camadas de burocracia corporativa e governamental. Enquanto os negociadores ocidentais gostam de ser agressivos e de jogar duro, muitos empresários na China veem o conflito simplesmente como perder a dignidade. Isto pode acabar com qualquer possibilidade de negócio.

Especialistas da empresa global de outsourcing Nair & Co sugerem obter um parceiro bem versado na cultura e mercados de negócios chineses. Muitos acordos comerciais na China são realizados informalmente e alguns deles podem nem sequer ser escritos.

Em muitos casos, muito se baseia nas relações com os funcionários do governo local, que ainda desempenham um papel importante no sucesso dos negócios. Uma empresa estrangeira que entre na China tem uma hipótese melhor, se tiver a perícia local à sua disposição.

Eastbound enterprise: adapting to the Chinese market

Política governamental

A influência das autoridades locais é um exemplo do poder do governo chinês sobre os negócios. As empresas não devem subestimar o efeito da opinião e política do governo sobre os negócios chineses. Como McKinsey realça, a política governamental continua a ser a principal força motriz na China.

A política do governo no que diz respeito ao investimento estrangeiro tornou-se mais liberal desde que a China entrou para a Organização Mundial do Comércio (OMC) em 2001, de acordo com a Deloitte. As políticas chinesas que tendiam a prioritizar as empresas locais mudaram, e agora permitem que empresas estrangeiras concorram igualmente com empresas domésticas.

As empresas pequenas ou de baixas margens, especialmente aquelas com foco em tecnologia, podem muitas vezes desfrutar de incentivos, como a redução do imposto de renda. Dependendo da região chinesa em que estão focados os negócios, também podem encontrar isenções de impostos baseados em compras ou recursos.

O governo chinês também tomou medidas para modernizar o seu regime interno, embarcando numa ampla iniciativa anti corrupção em todos os níveis de governo e permitindo mais privatizações. Isto é evidente no número de milionários chineses que surgiram nos últimos anos (a China tinha 1,590,000 em 2016, colocando-a em 6º lugar no mundo, de acordo com o Global Wealth Databook do Credit Suisse).

A política do governo cria os seus próprios desafios burocráticos que podem ser assustadores para muitas empresas ocidentais que lá fazem negócios. É difícil entender com quem se deve negociar numa empresa chinesa, ou numa estrutura do governo local, e em conversas privadas, advogados de capital de risco discutiram quão difícil pode ser estruturar e autorizar pagamentos a empresas estrangeiras por parte da China. Esperem burocracia.

Considerações tecnológicas

A China pode olhar favoravelmente para as empresas de tecnologia que fazem negócios dentro das suas fronteiras, mas a abordagem da China à tecnologia pode, muitas vezes, causar problemas. Estes são de três categorias diferentes; vigilância, censura e comprometimento de PI. Estão frequentemente interligados.

A China mantém à muito tempo um regime de censura pesada, centrado em torno do “escudo dourado” – uma rede de firewalls e políticas administradas do governo que permitem que autoridades do partido decidam o que as pessoas na China podem ver.

As regras de censura da China afastaram o Google e o Facebook, que se recusaram a cumprir as regras. O Facebook tentou afirmar-se na China voando por baixo do radar com uma aplicação invisível, lançada por uma empresa local.

A censura chinesa está, por vezes, intimamente ligada à política financeira do governo e pode sufocar a capacidade de conduzir negócios livremente. Um exemplo são as cripto moedas. O Banco Popular da China sempre foi ambivalente sobre cripto moedas como o bitcoin, mas em 2017, tomou um rumo agressivo.

O PBOC suspendeu a negociação de cripto moedas por moeda fiduciária em locais de troca, de acordo com a Reuters, e a Techcrunch informa que subsequentemente impediu que as pessoas realizassem ofertas iniciais de moedas (ICOs). No início do 2018, também começou a desencorajar a “mineração” eletrónica do bitcoin dentro das suas fronteiras.

Em geral, a China procura um alto grau de controlo sobre as novas tecnologias que entram nas suas fronteiras. Por exemplo, em 2015 as empresas de tecnologia ocidentais estavam preocupadas com a proposta de novas regulamentações que as forçariam a entregar o código-fonte, a submeterem-se a auditorias e até mesmo a construir backdoors no seu hardware e software.

Muitas empresas renderam-se a tais exigências, em graus variados. Por exemplo, a Apple aceitou “avaliações de segurança de rede” pelo governo chinês aos seus produtos, embora insista que não criou backdoors, mostrou código-fonte à China ou permitiu censura chinesa nos seus produtos.

Outras empresas teriam mostrado código-fonte às autoridades chinesas como condição para fazer negócios lá, incluindo a IBM e a Microsoft.

Tudo isto faz com que fazer negócios na China seja uma proposta complicada para empresas de tecnologia.

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Lei de Propriedade Intelectual

Porque motivo pode mostrar o código-fonte às autoridades chinesas ser um problema? Pela mesma razão que partilhar qualquer propriedade intelectual na China poderia ser um problema: a abordagem do país à lei de Propriedade Intelectual. Os países ocidentais têm tradicionalmente suspeitado do tratamento dado pela China à PI, preocupando-se com o facto de que a tecnologia mostrada a empresas ou funcionários do governo poderia chegar aos produtos e serviços domésticos.

Um relatório de 2017, sobre a China, entregue ao Congresso pelo Representante de Comércio dos EUA manifestou preocupação acerca de “sérios problemas com a aplicação dos direitos de propriedade intelectual na China, inclusive na área dos segredos comerciais.”

O relatório descreve incidentes em que “atores afiliados ao governo chinês e com militares chineses se infiltraram nos sistemas das empresas americanas, roubando terabytes de dados, incluindo a propriedade intelectual das empresas (PI), com o objetivo de proporcionar vantagens comerciais às empresas chinesas”.

Além disso, em 2016, a China foi colocada numa Lista de Observação Prioritária na Representação de Comércio dos EUA, Relatório especial 301, após uma pesquisa do FBI mostrar um aumento de 53% nos casos de espionagem económica. 95% das empresas que alegaram ser vítimas de espionagem disseram que as tentativas tiveram origem em indivíduos associados ao governo chinês.

A China prometeu melhorar a sua política de segredos comerciais e PI, e assinou acordos separados com os EUA e o Canadá. No entanto, as empresas que fazem negócios na China fariam bem em proteger os seus ativos.

Existem várias soluções. Uma delas é a criação de um centro de P&D separado na China, focado na pesquisa de novas PI em estreita colaboração com parceiros chineses. Ao estabelecer uma colaboração próxima, ambas as partes têm um incentivo para evitar fugas, dizem os especialistas. Essa abordagem pode ajudar a proteger novos desenvolvimentos da PI central existente.

Estruturar o empreendimento chinês

As empresas que desejam estabelecer uma presença significativa na China e não serem simplesmente uma empresa estrangeira sem presença no continente, têm várias opções.

Abrir uma sucursal chinesa

As corporações multinacionais podem abrir escritórios de representação, mas o seu foco operacional é limitado porque não gozam do mesmo estatuto legal que os chineses, de acordo com a Deloitte.

Empresa estrangeira de propriedade integral

Uma das abordagens mais populares para o investimento chinês, o WOFE só se tornou uma possibilidade depois da China ter entrado na OMC. Neste modelo, o investidor estrangeiro cria a sua própria empresa de responsabilidade limitada na China.

Empreendimentos conjuntos

A desvantagem de um arranjo WOFE é que, sem um parceiro chinês, o investidor fica restringido aos tipos de atividade comercial que pode realizar na China. A criação de um empreendimento conjunto com uma empresa chinesa existente resolve esse problema.

Um empreendimento conjunto também oferece à empresa estrangeira um parceiro local, e pode aproveitar as conexões deste e os conhecimentos locais. Isso não apenas abre os mercados locais, mas também dá aos parceiros estrangeiros um acesso mais fácil aos incentivos e parcerias locais.

Existem dois tipos de estrutura de empresa abertos para aqueles que procuram empreendimentos conjuntos. A primeira é um empreendimento conjunto cooperativo (também conhecido como “empreendimento operacional contratual”). Pode ser uma empresa de responsabilidade limitada, em que o investidor estrangeiro fornece fundos e tecnologia, enquanto que o parceiro chinês fornece infraestrutura (terra e equipamentos). Este acordo pode ajudar a reduzir o risco para o parceiro no exterior, que pode assumir uma participação minoritária no empreendimento e ajustar os termos com mais facilidade.

Por outro lado, um empreendimento conjunto de capital permite que o parceiro ocidental assuma uma posição mais ativa na empresa. Ambos os parceiros a gerem a iniciativa de forma mais igualitária e assumem uma responsabilidade mais igualitária, com base na contribuição de capital.

Empresas de ações conjuntas

As JSCs também são produto de parcerias com empresas chinesas, mas são elegíveis para listagem nas bolsas de valores chinesas.

Fazer negócios na China é uma perspetiva assustadora, mas as potenciais recompensas são enormes. É um mercado maciço, com mais consumidores com poder de compra médio e alto, a chegar a cada ano.

As empresas que estão de olho na China fariam bem em conseguir a ajuda de uma terceira empresa de consultoria e nomear alguém com um amplo e profundo conhecimento do ambiente de negócios local, quando fizerem a sua mudança. E a menos que o seu mandarim seja de primeira qualidade, alguns serviços de tradução (dica, dica) seriam uma boa ideia.

Quando se trata de construir uma presença nesta região excitante, definitivamente não quer perder-se na tradução.